Um conto para ser refletido, pois seria trágico se não fosse cômico.

Eutimia

 

– Querido irmão, acho que está havendo algum engano, pois sou espírita!

– Eu sei, e o que tem isso?

– Nobre benfeitor, você só pode ser espírita, não é?

– Que diferença isso faz?

– Toda diferença, humilde amigo. Somos preparados para este momento, temos maior conhecimento, acreditamos na reencarnação, na lei de causa e efeito, praticamos caridade, fazemos a divulgação da doutrina…

– Compreendo…

– Você não é espírita?

– Já lhe disse: que diferença isso faz?

– Nobre benfeitor, se não é espírita, receio estar em local errado, algum engano obviamente, lembro-me perfeitamente de como cheguei aqui, vim pelas nuvens, um momento de pura lucidez, nem passei pelo umbral.

– Só posso lhe garantir que não sou nenhum benfeitor e, principalmente, que aqui não há engano.

– Se fosse espírita, certamente me entenderia, veria que sou um dirigente, que fiz muito pela doutrina.

– Sinto desapontá-lo pela incompreensão.

– Não se preocupe, isso é porque falhamos na divulgação de nossa amada doutrina.

– Acredita mesmo que um mundo espírita seria diferente?

– Totalmente.

– E como seria isso?

– Já estaríamos em um mundo de regeneração. O mundo precisa conhecer o Espiritismo, senão…

– Senão…?

– Senão haverá separação do joio e do trigo, de forma abrupta, cortando o mal pela raiz, permanecendo somente os bons, os trabalhadores da última hora!

– Os espíritas?!

– Sim. Por isso, ser espírita é uma tarefa, uma missão espiritual!

– Mas, até onde conheço, o Espiritismo tem aproximadamente 13 milhões de adeptos no mundo. Como fazer para converter os outros 6.987.000.000 bilhões?!

– Muitos vão morrer nessa transição!

– Nossa! E quantos ficariam?

– Não sei.

– Uma estimativa? Metade?

– Talvez.

– Então, cerca de 3.493.500.000 morreriam, e a outra metade se tornaria espírita?

– Isso! Mas não se preocupe, meu caro, nossa pátria, o amado Brasil, está protegida, e nossos queridos que lá se encontram seguirão firme nessa tarefa.

– E o restante do mundo?

– O que é que tem?

– O que vai acontecer?

– Quando não se torna espírita pelo amor, é pela dor, e sofrerão com as catástrofes, até que se encontrem com a doutrina.

– E como fazer com que o mundo, ou melhor, o restante dele, torne-se espírita?

– Livros, TV, Rádio, Palestras, Internet!

– Propaganda?

– Não. Divulgação! Emmanuel… você sabe de quem estou falando, não é?

– Imagino que sim!

– Então, como lhe falava, Emmanuel disse que a maior caridade que podemos fazer pela Doutrina Espírita é a sua divulgação!

– Emmanuel disse isso?

– Disse.

– A maior caridade?

– Sim.

– Em que livro?

– Não me lembro.

– Sei.

– O momento é de urgência, e o mundo espera por nós!

– Antes de pedir para que retorne ao seu quarto, gostaria de lembrá-lo da referida frase do benfeitor Emmanuel: “(…) Lembra-te deles, os quase loucos de sofrimento, e trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda socorro oportuno. Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade da sua própria divulgação”. Esta frase está na mensagem Socorro Oportuno. Agora você se lembra?

– Não. Às vezes, as pessoas deturpam um pouco os ensinamentos.

– Não seria bom se questionar? Será que Emmanuel qualificaria tipos de caridade, como sendo maior ou menor?

– É. Nunca tinha pensado por esse ângulo. A propósito, qual a sua religião mesmo?

– Já lhe disse.

– Disse? Não me recordo?

– Que diferença isso faz?

– Estou começando a ficar desconfiado de que você apenas deseja me confundir, fazer com que eu deixe de ser espírita.

– Pode ter a certeza de que não é isso. Estou tentando explicar que o mundo é muito extenso e composto por grande diversidade cultural, queria muito que você entendesse.

– Caro amigo, se assim posso lhe chamar, você realmente não conhece a força do Espiritismo…

– Acredito que não.

– Fazemos a caridade, eu mesmo já servi tantos pratos de sopa aos pobres, que até perdi a conta! Você sabia disso?

– Já ouvi você dizer por algumas vezes.

– Perdão, nós nos conhecemos?

– Sim.

– Você me parece familiar, mas eu não me lembro.

– Vai se lembrar com o tempo, assim espero.

– E então, como ficamos?

– Acho melhor você voltar para seus aposentos e esperar.

– Esperar?

– Sim, esperar. Lembra-se de Abigail?… Livro Paulo e Estevão: Ama, trabalha, perdoa e espera!

– Compreendi. Essa deve ser a última etapa. Já amei, já trabalhei barbaridade, já perdoei cada um “daqueles” que me fizeram mal e, agora, só me resta esperar. Vou aguardar então.

– Você gostaria de saber mais alguma coisa?

– O Chico é mesmo a reencarnação de Kardec? Agora vocês podem falar, prometo que não darei nenhuma comunicação mediúnica a esse respeito.

– Eu lhe falei da mensagem do Emmanuel, depois de Abigail, e você me faz essa pergunta?

– A curiosidade sobre a vida alheia ainda é um vício entre nós, mas acredito que é positivo e benéfico para o aprendizado. Acredite, não conto a mais ninguém!

– Desde quando saber da vida dos outros é benéfico? Não posso lhe dizer se Chico é Kardec ou se Kardec é Chico, além do mais, isso pouco me importa.

– Pelo visto, só acessarei esta informação quando me for revelado todo o meu passado. Sei que vivi junto a ele e que fui responsável por queimar os livros e atrasar o desenvolvimento da humanidade. Hoje, espero ter resgatado esse meu delito.

– Tudo bem, já que falou dos livros, vamos tentar novamente. A TV, os livros, as palestras…

– Claro, a divulgação, que você chamou de propaganda. É preciso levar a palavra a todos os quatro cantos do mundo, continuar com as palestras, os canais, os livros, jornais… Você já ouviu alguma palestra minha?

– Já.

– Já? Você me acompanhava?

– Sim. Lembra?

– Claro que é isso! Você devia ser um de meus seguidores, neste mundo de likes e curtidas. Eu tinha uma verdadeira legião de seguidores. Legião do bem, é claro, nada a ver com aquela desobsessão em que o Cristo expulsou os Espíritos maléficos do corpo do rapaz. Eu também já participei de muitos trabalhos de desobsessão!

– Eu também sei.

– Sabe? No começo, quando o vi com esses trajes, julguei que fosse um crente indo ao culto, mas, pelo visto, pode ser meu protetor, é isso?

– Praticamente.

– Logo notei. Nós, com estas roupas translúcidas, e você, com essa altivez, cabelo grisalho, só poderia pertencer a outros planos. Diga-me: o que você foi em outra encarnação? A julgar pelo queixo quadrado, certamente um centurião da época do Cristo. Um amigo de Emmanuel?

– Sou amigo de Emmanuel, não posso negar.

– Eu sabia. As 7.332 cestas básicas que entreguei, os milhares de livros que distribui, foram com sua ajuda, não é?

– Praticamente.

– Vou lhe confessar: sempre achei que meu protetor seria um Espírito do mais alto galardão. Acertei. Amigo de Emmanuel, quem diria!

– É melhor nos despedirmos…

– Claro, claro, mas, antes de ir, poderia me dizer se aquele ali de bigode e barba branca, jaleco alvo, conversando com aquela senhora perturbada, não seria Bezerra de Menezes?

– Não. Não é Bezerra de Menezes.

– Eu também desconfiei!

– De quê?

– Que não poderia ser Bezerra de Menezes, afinal, já recebi muitas comunicações mediúnicas de Bezerra de Menezes, e ele, certamente, já teria se lembrado de mim, afinal, foi uma grande parceria. Também foram meus parceiros, Cairbar, Eurípedes, João Evangelista, e outros. Todos deram comunicação por meu intermédio.

– Agora é melhor voltar para seu quarto e esperar. Lembra: Emmanuel, Abigail…

– Claro, o último teste: esperar.

– Não, senhor Alberto, não é nada disso. Emmanuel é seu filho, Dona Abigail é sua esposa, lembra? Das outras vezes, era só falar estes nomes que o senhor logo se lembrava de sua família, mas, agora, não sei como fazer!

– Emmanuel meu filho? Abigail minha esposa? Não me diga que sou Paulo?

– Não, o senhor é Alberto Gonzaga Pascoal Filho! Seu falecido pai, o senhor Gonzaga, deixou-lhe alguns alqueires de terra. O que ninguém contava é que, debaixo daquelas terras, que durante anos só produziram café, teria uma das maiores jazidas de minério do Brasil. O senhor é um milionário!

– Eu?

– Sim. Seu filho Emmanuel entrou com uma interdição judicial alegando insanidade, depois daquele fatídico dia, e agora briga na justiça pelo controle da fortuna.

– Fatídico dia?

– Sim, o senhor subiu as escadas da mansão e, da sacada de seu quarto, começou a jogar todas as roupas, joias de sua esposa, dinheiro guardado no cofre, ações, papéis importantes, tudo pela janela, até que, quando ficou nu, disse que era Francisco de Assis.

– Estou muito confuso, amigo benfeitor, sou Paulo ou Francisco de Assis?

– Já lhe disse que não sou seu benfeitor. Senhor Alberto, por favor, preciso que veja a vida presente, o dia de hoje, o que está acontecendo à sua volta, pare de achar que tudo é obra dos Espíritos e suas junções do passado. Este terno e esta gravata foram comprados com salário que recebo do senhor, por serviços de advocacia. Sou seu advogado e sempre lhe acompanhei, desde meus primeiros anos de Faculdade, aliás, custeada pelo senhor.

– Meu jovem, eu vim pelas nuvens, como lhe disse… Uma figura angelical, toda de branco, segurava minhas mãos.

– Senhor Alberto, perdoe-me a franqueza, todos estamos tentando lhe poupar, mas o momento é crítico. O senhor veio de helicóptero, sua filha caçula, Beatriz, que é médica, foi ela quem conseguiu sua internação nesta clínica psiquiátrica de luxo. Não são roupas translúcidas que estão usando, são camisolas de uma unidade psiquiátrica. A propósito, aquela mulher perturbada que conversa com o suposto Bezerra de Menezes é D. Abigail, suplicando a seu médico, Dr. Davi, algum tipo de orientação sobre como devemos proceder para ajudá-lo.

– Será?

– Ela o ama muito e sempre o apoiou em suas atitudes, mas, de uns tempos para cá, não podia abrir a boca que já era acusada pelo senhor de estar obsediada, perturbada, que tinha que tomar passes.

– Abigail?!

– A mensagem com o título Socorro Oportuno foi me dada por suas próprias mãos, quando me recusei a aceitar uma causa por saber que meu futuro cliente não tinha nenhuma condição financeira. O senhor me chamou a atenção para os fundamentos do Espiritismo, o cristianismo redivivo! Não aquele só de palavras, de palestras, ou das câmeras de TV, mas aquele que se compadece com a miséria do mundo, que tem compaixão e não uma receita de vida, impondo goela abaixo ensinamentos sem reflexão, desrespeitando a crença alheia,  preocupado em expandir “a verdade”. Que verdade é essa?

– Eu… Eu…

– O senhor me ensinou que isso era pura pretensão e presunção, o egoísmo e o orgulho disfarçados. Era o senhor quem me dizia que isso era propaganda, que o verdadeiro Espiritismo está na alma do homem, só precisa deixar germinar no coração, está em nosso exemplo, em tentar dominar os vícios e as paixões, em ajudar o próximo, sem humilhação, pois quem ostenta o que faz humilha quem recebe, lembra-se dessa frase?

– Não.

– Era o que sempre dizia, ou então: “Fazer o bem pelo bem, sem barganhas com a vida”, recorda?

– Veja bem…

– Senhor Alberto, seu filho Emmanuel só pensa em dinheiro, é um materialista convicto, e, por isso, o senhor dizia que ele era causa perdida. Beatriz, a caçula, menina de seus olhos, seguiu lado oposto, altruísta graças a seus exemplos, escolheu Medicina por querer ajudar, e, só por ela ter esse jeito, o senhor achou que ela não precisava de nada, mas ela vive em completa solidão. E seus funcionários, aqueles que dão o suor para sua riqueza? A maioria construiu suas casas clandestinamente em torno da mineradora, hoje conhecida como Vila da Servidão, por tamanha miséria nas ruas, alcoolismo, violência doméstica, baixa escolaridade, todos funcionários seu, rogando por sua lucidez e bom senso.

– Parece um filme…

– Penso, senhor Alberto, que não é necessário ter a mesma atitude de Francisco de Assis, ele já fez isso no passado para chamar nossa atenção, para não vivermos em função da matéria, e sim do Espírito. Nós só precisamos tentar praticar os seus ensinamentos, a simplicidade em viver o dia de hoje, enfrentando as dificuldades do mundo atual! Não precisamos de pessoas que curam, precisamos aprender a não ficar doentes! Precisamos aprender a ser um instrumento da paz de Jesus, e não a ser o próprio Jesus, somos humanos. Precisamos de pessoas como o senhor, quando começou no Espiritismo, mais preocupadas em ajudar do que em doutrinar.

– Eu não…

– Senhor Alberto, sei que atravessa uma fase difícil, um delírio religioso, uma confusão, mas busque a razão. Se Jesus é o governador do planeta, devemos confiar Nele. Somos apenas ajudante, do ajudante, do ajudante, do ajudante do auxiliar de Jesus. Ele não pediu para que fossemos mártires, mas para nos amarmos, primeiro a nós mesmos, depois ao próximo, como nossa família, amigos, funcionários e, só depois, o mundo…

– Mas as mensagens…

– Em suas palestras, sempre ouvi dizer, cheguei até a decorar, que Kardec preferia refutar mil verdades do que aceitar uma mentira, que o codificador analisava tudo, consultava vários médiuns, e que ele não saiu acreditando em tudo o que ouvia, além do mais, por que se prender a esse desejo de querer ouvir uma mensagem quando a mensagem maior já foi dita? O que mais precisamos, ou melhor, queremos ouvir? Será que já não temos tudo o que é preciso?

– Estou confuso.

– Eu sei e sinto muito não ter lhe dito tudo isso antes e, hoje, também me sinto responsável por vê-lo nestas condições. Pense no que conversamos e se esforce. Amanhã, eu e D. Abigail retornaremos para visitá-lo. Agora, descanse um pouco.

(Conto retirado do livro “Ensaios” – Ide Editora)

Post Author: ideeditora

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