Só por isso? – Conto de Wilson Frungilo Jr.

Vida difícil a de Damião, trinta e dois anos de idade, solteiro, catador de papelão, latas vazias e outros materiais pelas ruas da cidade de médio porte, para vender como sucata num ferro-velho.

Órfão de pai e mãe aos dezesseis anos, apenas lhe restara uma pequena casa num bairro pobre, na verdade, numa rua sem asfalto, com cerca de apenas vinte e duas casas, a aproximadamente dois quilômetros da periferia da cidade.

O jovem ganhava apenas o suficiente para se alimentar e dormia num colchão estendido no solo cimentado de sua casa. O fogão, ele mesmo o construíra com tijolos, sobras de uma construção. Energia elétrica não havia, e água e esgoto não pagava, sendo que o serviço municipal de saneamento básico fazia vistas grossas, desde que não se construísse mais nada naquele local, deixando a critério daqueles moradores impedir que isso acontecesse.

Damião pouco sabia a respeito desse assunto. Não sabia ler e escrever, apenas conhecia as contas básicas da Matemática.

Todos que habitavam aquele local passavam por dificuldades, apesar de estarem empregados, pois trabalhavam a troco de pequeno salário. Eram empregadas domésticas, trabalhadores braçais da construção civil e da agricultura, enfim, possuíam ocupações nas quais não havia necessidade de diplomas ou de serem alfabetizados.

As crianças frequentavam uma escola pública, condição necessária para que suas famílias recebessem alguns mantimentos do serviço social do município.

Mas, apesar de todas essas dificuldades, Damião trazia sempre um sorriso nos lábios e uma palavra de ânimo a todos daquele pobre povoado, fazendo questão de cumprimentar com alegria a quem quer que encontrasse pelo caminho.

– Bom dia, dona Rosa! E a Lurdinha? Melhorou da febre?

– Graças a Deus, Damião, e graças a você, que conseguiu o remédio para ela.

– Graças a mim, não, dona Rosa. Graças ao seu Artur da farmácia, que foi quem deu o medicamento.

– É, Damião, mas você fez a limpeza do quintal da casa dele, em troca dessa caridade.

– Foi fácil, dona Rosa. Só cortei o mato. Temos que agradecer mesmo é a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, para quem eu pedi que ajudasse de alguma forma.

– Então, graças a Deus e a Nossa Senhora. E ao seu suor, Damião.

E o rapaz, sorrindo, continuou o seu caminho, empurrando uma grande caixa de madeira, com quatro rodas, seu veículo de transporte de sucatas. Na última casa da rua, encontrou-se com Deise, uma empregada doméstica, que saía para o trabalho com o filhinho José, de três anos de idade, ao colo.

– Bom dia, dona Deise!

– Bom dia, Damião.

– Vamos ver se hoje consigo o que lhe prometi. Tenho rezado bastante para encontrar um carrinho de bebê para a senhora levar o menino até a creche, antes do trabalho.

– Que Deus o ajude, Damião. O garoto já está ficando pesado, e ainda mais, agora, que estou grávida…

– Deus, com certeza, irá nos ajudar.

E Damião continuou o seu caminho, rogando aos anjos que o ajudassem. Ainda se encontrava em prece, já na entrada da cidade, quando ouviu alguém o chamar:

– Damião!

Voltou-se e viu seu Roberto acenando para ele. Virou o carrinho de madeira e foi em sua direção.

– Bom dia, seu Roberto. Precisa de alguma coisa?

– Entre aqui no meu quintal. Quero lhe mostrar algumas coisas que separei para você. Talvez lhe interesse.

– Vamos ver – respondeu, acompanhando o conhecido até os fundos da casa, onde se encontrava razoável número de cacarecos, com certeza, fruto de uma faxina, daquelas nas quais a maior intenção é fazer uma limpeza no que não tem mais serventia e que apenas ocupa espaço na casa.

– O que acha? Dá para vender no ferro-velho?

Damião examinou tudo rapidamente. Tratava-se de pedaços de ferro, rolos de arame enferrujados, panelas furadas, algumas ferramentas, um tripé pesado de sapateiro, um martelo sem cabo, um alicate torquês pequeno e um pouco de papelão.

– Dá para vender, sim, seu Roberto. Quanto o senhor quer por tudo isso?

– Bem… não sei… talvez…

– Ele vai dar para você, Damião – respondeu uma voz feminina. Os dois olharam para a porta da cozinha e viram dona Fátima, esposa de Roberto.

O rapaz voltou o seu olhar para o homem, sem saber o que estava acontecendo, e virou-se novamente para a mulher.

– Vamos dar tudo para você. Não precisa nos pagar nada.

– Não…?

O marido lhe endereçou um sorriso forçado e confirmou:

– Sim, Damião. Não vamos lhe cobrar nada, não. Na verdade, nem saberia o que cobrar.

– Mas eu sei calcular quanto teria de lhe pagar, seu Roberto.

– Damião – disse, agora, a esposa –, você já vai nos fazer um grande favor se levar tudo isso embora, não é, Roberto?

– Pois é claro, querida. Não terá de nos pagar nada. Já está nos fazendo um enorme favor – concordou, ainda constrangido por ter tido a intenção de lhe cobrar.

– Bem… eu agradeço de coração.

– Então, você já pode começar a carregar – completou o homem.

– Vai valer a pena, Damião?

– Vai sim, dona Fátima. Penso até que dará para eu comprar ou trocar por um carrinho de bebê, lá no ferro-velho mesmo.

– Carrinho para bebê? Você vai ser pai, Damião? O que andou aprontando? – perguntou a mulher, rindo.

E o rapaz, então, falou sobre a necessidade de Deise com o filho José.

– Você seria, mesmo, capaz de fazer isso?

– E por que não o faria?

– Bem… É que talvez não lhe sobre dinheiro nessa venda… Isso se o ferro-velho tiver o carrinho, e não lhe pedir mais caro do que irá receber por isso aí.

– Acho que vai dar, dona Fátima. Até estou pensando em não vender este tripé, o martelo e o alicate para dá-los ao seu Fortunato, lá da minha rua. Ele, às vezes, faz consertos de sapatos para ganhar mais alguns trocados, além de trabalhar como engraxate. E as poucas ferramentas que possui não são nada apropriadas.

– Você vai dar para ele? Por que não vende?

– Seu Fortunato não tem condições de comprar, e, se estou tendo esta oportunidade, não poderia deixar de presenteá-lo. Ele vai ficar muito contente e vai poder trabalhar melhor.

– E onde ele trabalha, Damião? – perguntou Roberto.

– Ele leva seus apetrechos de engraxate numa bicicleta velha e percorre as ruas da cidade, de casa em casa, oferecendo os seus serviços. É um homem muito esforçado, tendo em vista a sua idade avançada, mas ganha muito pouco, além do que, toda vez que consegue alguns trocados, leva para a filha e o genro, que o alimentam e lhe dão moradia.

– Damião – disse a mulher, já emocionada –, tenho ouvido muito falar sobre o que você tem feito pelas pessoas mais necessitadas, principalmente da sua rua, e fico emocionada em ouvi-lo falar assim. Diga-me uma coisa: de onde vem toda essa bondade? E mais: de onde vem toda essa sua saúde? Ouvi dizer que nunca fica doente, apesar de saber também que, às vezes, nem tem o que comer.

O rapaz baixou a cabeça, timidamente, e respondeu:

– Não há nenhuma bondade nisso, dona Fátima. Apenas gosto de ver as pessoas menos tristes. Até porque, não passo pelas dificuldades que todas enfrentam, pois não sou casado, nem tenho filhos.

– Por que nunca se casou, Damião? Nunca se apaixonou ou, simplesmente, gostou de alguma moça?

– Já, sim, dona Fátima. É que, nas vezes em que me interessei, não tive a felicidade de ser correspondido, mas tenho certeza de que, se Deus quiser, surgirá alguém com quem eu possa dividir a minha alegria de viver.

– E quanto a essa sua saúde de ferro, e toda essa sua alegria?

– Bem, sobre a minha saúde, não saberia lhe responder, dona Fátima. Realmente, é muito difícil eu ficar doente. Às vezes, até tenho um resfriado, mas essa minha disposição não é para sempre, não é? Também irei envelhecer.

– Pois eu vou lhe dizer uma coisa, Damião.

– Diga, dona Fátima.

– Penso que essa sua saúde tenha origem em algo muito simples, que o salvaguarda das doenças.

O rapaz olhou curioso para a mulher, não atinando com o que seria. Roberto também ficou aguardando a esposa continuar seu pensamento que, não se fazendo de rogada, completou:

– Penso que seja uma “vacina”, sei lá, que venha do fato de você se alegrar tanto com a alegria dos outros. Já li sobre isso em um livro, que dizia que a verdadeira alegria ou felicidade é essa: a que sentimos com a alegria do próximo, ampliada grandemente se a pessoa puder oferecer de si para que os outros sejam felizes. E dizia mais: que esse tipo de alegria não tem limites, porque sempre haverá pessoas no nosso caminho, ou seja, que sempre teremos essa oportunidade de ajudar. Você entende?

Damião começou a pensar, mas não entendeu muito bem o que a mulher quis dizer, e respondeu:

– Não sei se entendi, dona Fátima. A única coisa que sei é que gosto de fazer alguma coisa para ajudar aquele que está passando por dificuldades.

– Você acredita na existência de Deus, Damião?

– Acredito, sim, e acredito muito nos ensinamentos de Jesus.

– Você os conhece?

– Às vezes, vou até a igreja para ouvir o sermão do padre Miguel e penso que aprendi uma coisa muito importante que ele disse.

– E o que foi? – perguntou Roberto, bastante tocado com aquela conversa da esposa com o rapaz.

– Certa vez, ele disse que Jesus simplificou todos os mandamentos em apenas dois. O primeiro, amar a Deus, ou seja, acreditar na Sua existência, no Seu amor, na Sua misericórdia e confiar Nele. E o segundo, amar o próximo e fazer a ele tudo o que desejaríamos que ele nos fizesse, sem esperar recompensas, a não ser o seu sorriso e a sua alegria.

– Muito bonito isso, Damião – disse Fátima, emocionando-se –, e até me admiro pelo fato de o padre dizer isso, ou seja, condensar os dez mandamentos em apenas dois. Realmente, esses dois já bastam para que um cristão cumpra os dez.

E a mulher, após pensar por alguns poucos segundos, disse;

– Bem, meu rapaz, agora carregue toda essa sucata e venda o que achar que deva vender. Quanto ao carrinho de bebê para Deise, não precisa mais se preocupar. Passe aqui à tardezinha, quando estiver voltando para sua casa. Vou providenciar esse carrinho.

– A senhora está falando sério?! – exclamou Damião, não cabendo em si de tanta alegria.

– Sim, não é, Roberto?

– Pode passar aqui, Damião. O carrinho estará à sua espera.

E, assim, passaram-se os anos, e Damião, sempre alegre, viveu auxiliando, de alguma forma, os necessitados, muitas vezes tirando de si para levar a alegria e a resolução de seus problemas.

Algumas vezes, ajudando com o leite necessário a alguma criança, de outras tantas, alimentos, materiais para o conserto de uma casa, além de, no Natal, sempre aparecer com brinquedos usados, ainda em bom estado ou por ele reformados.

Chegava mesmo a não ter com o que se alimentar, pois utilizava o pouco dinheiro ganho para atender a situações de emergência.

E tanto fez que, com o seu exemplo, os poucos moradores daquela rua, espontaneamente, passaram a seguir os seus passos.

Aos oitenta e três anos, Damião desencarnou enquanto dormia, fato descoberto logo pela manhã, pois notaram a sua falta na rua, encontrando o seu corpo sem vida deitado sobre o mesmo colchão de sempre, com um feliz sorriso nos lábios.

Despertou no Plano Espiritual, num hospital, mas plenamente recuperado da causa de sua desencarnação, e, confiante e deslumbrado com a beleza daquela ambiente, não teve dificuldades para compreender como tudo funcionava na vida: a necessidade das encarnações, o amor de Deus, a proteção dos Espíritos elevados aos encarnados ou a influência dos Espíritos infelizes e o livre-arbítrio do homem no necessário aprendizado.

Mas uma dúvida ainda persistia em sua mente humilde e simples, notada por Euclides, Espírito que tivera a incumbência de esclarecê-lo, e que, então, perguntou-lhe:

– Percebo que algo ainda o faz pensativo. O que é, meu irmão?

E Damião, baixando o olhar, perguntou-lhe:

– Por que estou tendo tanto auxílio aqui, no verdadeiro plano da vida? Tanto carinho…

Euclides, já ciente do que lhe passava pelo pensamento, respondeu-lhe:

– Por tudo o que você fez pelos necessitados e desvalidos da sorte. Já passou por uma das maiores provas que um Espírito pode viver e que lhe proporcionou uma posição bem localizada no que denominamos de início do caminho para a felicidade. E isso só se conquista quando descobrimos a verdadeira e real base em que se fundamenta essa felicidade, que é a do amor ao próximo sem limites.

E Damião, ainda ensimesmado, perguntou:

– Só por isso? Mas isso me proporciona alegria no coração…

Euclides, então, sorriu, abraçou-o e lhe disse:

– Só por isso, sim, Damião. Só por isso, aos olhos de Deus, você é um homem de bem.

(Conto de Wilson Frungilo Jr., publicado no Anuário Espírita de 2016 – Ide Editora).

Post Author: ideeditora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *