Religião e Espiritualidade – Anuário Espírita.

Religião e Espiritualidade.

Artur Valadares.

No prefácio do livro Nosso Lar, afirma-nos o ben­feitor Emmanuel “que os passos do cristão, em qual­quer escola religiosa, devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo, e que, em nosso campo doutrinário, precisa­mos, em verdade, do Espi­ritismo e do Espiritualismo, mas, muito mais, de Espiri­tualidade”.(1)

A espiritualidade pode ser comparada ao desper­tar da criatura para a Vida no seu sentido mais amplo, para as realidades maiores do Espírito e do mundo es­piritual e suas leis. A partir desse processo, passa ela então a renovar completa­mente o seu olhar para a existência e para as situa­ções e pessoas que a cercam, pois começa a entender que existe, nelas e para além de­las, muito mais do que seus olhos mortais podem ver. Seus objetivos e metas exis­tenciais também se alteram significativamente, porque não mais restritos ao breve período da existência cor­pórea, e sim voltados agora para a vida que se estende e se engradece, cada vez mais, em direção ao infinito e à eternidade.

Espiritualidade, po­rém, não se ganha nem se permuta, conquista-se. E se ela é um fim, as reli­giões são um meio. Através de uma vivência sincera dos postulados fundamen­tais mais nobres de cada uma delas, a criatura vai, pouco a pouco, encontrando os recursos para desenvolver a sua espiritualidade ou, de maneira sinônima, sua religiosidade. Por isso, disse-nos Emmanuel: Toda arregimentação religiosa na Terra não tem escopo maior que o de preparar as almas, ante a grandeza da vida espiritual.(2)

Nesse sentido, buscando refletir melhor sobre essa relação entre religião e espiritualidade, à luz dos ensina­mentos do Cristo, selecionamos a seguinte parábola para análise: “E ninguém deita vinho novo em odres velhos; de outra sorte, o vinho novo romperá os odres, e entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão; Mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos, e ambos juntamente se conser­varão.”(3)

O leitor poderá se perguntar: o que têm esse vinho e os odres a ver com espiritualidade? Bem, para isso, pre­cisamos antes esclarecer alguns pontos importantes, que nos permitirão retirar o “Espírito” da “letra” no texto em questão.

Naquela cultura, era comum a utilização, por parte dos mestres e rabinos, de elementos do cotidiano como sím­bolos para a ilustração de verdades espirituais profundas. O próprio Mestre, ao se referir ao Reino de Deus – realidade íntima de paz e harmonia alcançada pela criatura em co­munhão com o Criador –, utiliza-se, por exemplo, de várias figuras, como se vê no capítulo 13 do evangelho de Mateus: a semente, o fermento, a pérola, o tesouro escondido e mes­mo os peixes.

É interessante notar, no entanto, que todos eles têm algo em comum, pois que se tratam de elementos que se desenvolvem ou se encontram no “interior” de alguma outra coisa: a semente, na terra; o fermento, na massa; a pérola, na ostra; o tesouro escondido, na terra; e os peixes, no mar. Assim, partindo-se de analogias simples, fica evidenciada a realidade interior desse Reino tão aguardado.

E, dentre esses elementos do cotidiano, os sábios he­breus escolheram o vinho para representar o Espírito ou o conhecimento espiritual e, por extensão, a espiritualidade do indivíduo. Novamente, alguém poderá se perguntar: qual a relação entre eles? Ora, ao contrário da grande maioria das coisas que se degenera com o tempo, o vinho sempre se aprimora. Quanto mais velho for, mais saboroso, aper­feiçoado e valioso será. Por isso, era tido como um símbolo para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento ilimitados. Não é mesmo uma analogia perfeita para o que acontece com o Espírito?

Para nós espíritas, no entanto, esse símbolo não é nem novo nem estranho, já que, nos Prolegômenos  de O Livro dos Espíritos, além do desenho da cepa de uma videira, encontramos também a seguinte orientação dos Espíritos Superiores, que resume bem o que falamos até aqui:

“Porás no cabeçalho do livro a cepa que te dese­nhamos, porque é o emblema do trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o Espírito. O corpo é a cepa; o Espírito é o licor; a alma ou Espírito ligado à matéria é o bago. O homem quintessencia o Espírito pelo trabalho, e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo o Espírito adquire conhecimentos.”(4)

Se o vinho é, portanto, o conhecimento espiritual que nos chega, o que então representam os odres? Acertou o leitor se disse: “nós”. De fato, somos os receptáculos desses conhecimentos espirituais, e a espiritualidade é justamente a nossa capacidade de conservá-los e desenvolvê-los, man­tendo-nos conectados com as realidades mais elevadas que eles nos descortinam.

Diz o Cristo, porém, que, se o odre permanece ve­lho ao receber vinho novo, em dado momento tanto o odre se romperá como, consequentemente, o vinho também se perderá. Fisicamente falando, o que acontece é que, como o odre é velho, está fragilizado e repleto de impurezas, ao contato com o vinho novo, ocorre então o processo de fer­mentação, que produz gás e gera uma expansão do odre. Como este está fragilizado, chega um momento em que não resiste mais à pressão e acaba se rompendo. Em termos espirituais, no entanto, o que isso significa?

Bem, para entender melhor essa analogia do Mestre, é preciso antes compreender um conceito muito utilizado nas pesquisas sobre a influência de religiosidade na vida de um indivíduo, denominado: orientação religiosa. Essa orientação, basicamente, denota qual a postura adotada pelo indivíduo perante sua religião, podendo ser de dois ti­pos principais: extrínseca ou intrínseca.

A religiosidade extrínseca é aquela pautada, como o próprio nome diz, mais em aspectos exteriores do que em uma verdadeira mudança interior. A intrínseca, por outro lado, é aquela que se fundamenta numa renovação do in­divíduo para melhor a partir de sua experiência religiosa. Nesta, o que realmente importa é a conduta; naquela, mui­to mais os rituais e formalismos. Segundo Gordon Allport – criador destes conceitos –, na religiosidade extrínseca, o indivíduo busca ser servido por Deus, enquanto, na intrín­seca, busca servir a Ele. Na primeira, usa a sua religião; na segunda, a vivencia.

Pesquisas no campo da psicologia e da psiquiatria, envolvendo os conceitos de religiosidade intrínseca e extrín­seca, têm demonstrado que, enquanto a primeira gera uma melhora significativa na qualidade de vida do indivíduo e na prevenção de males como a depressão e o suicídio, a segun­da tem ocasionado os efeitos inversos, levando muitas vezes o indivíduo a adotar posturas que são prejudiciais tanto a ele próprio como aos que o cercam, como, por exemplo, o preconceito, a intolerância ou uma culpa excessiva. E por que isso?

Como a religião descortina ao indivíduo posturas de vida mais concernentes com as leis divinas que nos regem a todos e que estão gravadas em nossa própria consciência, ela pode vir a se tornar uma fonte de conflito interior, caso não haja uma sincera disposição do indivíduo em incorpo­rar à sua vivência as posturas por ela propostas. Isso ocorre a partir do despertamento de sua consciência pelos conhe­cimentos adquiridos (“vinho”), que passa então a lhe cobrar uma postura mais coerente com aquilo que tem aprendido, já que uma vivência harmonizada com as leis divinas e, portanto, com a própria consciência, é a única garantia de uma vida realmente pacificada e feliz.

Se, porém, ele não se dispõe a essa mudança, o con­flito interior cresce e será tanto maior quanto maior for a sua resistência em se renovar, tornando-se um novo odre. A analogia com o processo de fermentação do vinho novo dentro do odre velho ilustra muito bem o processo.

Por isso, é preciso que se evite a adoção de uma religiosidade pura­mente extrínseca. É o que nos dizia Jesus: “Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas”5, ou seja, “cuidado para que o conhecimento espiritual que lhe chega não se torne uma fonte de conflitos e sofrimentos pela não adequação de sua existência a eles”.

A garantia da manutenção da espiritualidade é, por­tanto, a renovação do “odre”, o que significa dizer a renova­ção do indivíduo, a sua transformação para melhor, dentro dos princípios mais nobres estabelecidos por sua religião. Sem isto, tanto o “odre” sairá prejudicado, como o “vinho” se perderá, isto é, a experiência religiosa poderá se tornar prejudicial para o indivíduo e o seu suprimento de espiri­tualidade acabará se perdendo. Por isso, afirmava Kardec, com toda a sua perspicácia e lucidez:

“O objetivo da religião é conduzir a Deus o ho­mem. Ora, este não chega a Deus senão quando se torna perfeito. Logo, toda religião que não torna me­lhor o homem não alcança o seu objetivo. […] Tal o resultado que dão as em que a forma sobreleva ao fundo. Nula é a crença na eficácia dos sinais exte­riores, se não obsta a que se cometam assassínios, adultérios, espoliações, que se levantem calúnias, que se causem danos ao próximo, seja no que for. Seme­lhantes religiões fazem supersticiosos, hipócritas, fa­náticos; não, porém, homens de bem.”(6)

Para aqueles, pois, que já abraçaram a proposta do Evangelho, a orientação é clara: beber do “vinho” espiri­tual do Cristo e se tornar um novo “odre” a partir desse contato… Eis o verdadeiro processo de ascensão, fonte de espiritualidade e comunhão perene com Deus. Felizes, pois, aqueles que assim o fizerem. Experimentarão, no corpo ou fora dele, a alegria incomensurável do ser que se deixa “em­briagar” pela Sabedoria e pelo Amor infinito de Deus.

1 XAVIER, F. C. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Prefácio.

2 XAVIER, F. C. Vinha de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. Cap. 17.

3 (Lucas 5:37,38).

4 KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Prolegômenos.

5 (Lucas 11:35).

6 KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 8,

(Artigo extraído do “Anuário Espírita 2017” – Ide Editora.) 

Post Author: ideeditora

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