O Cristo, os benfeitores e nós.

O Cristo, os benfeitores e nós.

  • – Jairo Lorenzeti – 

Em um mundo onde a informação circula fácil e rapidamente, recebemos, a todo instante, notícias de todos os lugares e das mais variadas formas. Devido a esse grande número de in­formações, acabamos ten­do um oceano profundo de novidades, mas muito raso de conhecimentos. Falamos sem pensar, sem conhecer, nossa ansiedade anda a mil, queremos falar, dar opinião, ser ouvidos, enfim, mostrar que existimos. Tentamos, então, de alguma forma, agruparmo-nos. Quem com­partilha nossas opiniões: amigos. Quem é contrário a nossas opiniões: inimigo. Dividimos facilmente entre “nós” e os “outros”, fanta­siando uma separação en­tre o bem e o mal.

Diante dessas atitu­des, vemos aumentar a con­fusão e a segregação em uma época de contradições e transformações. Nossa ignorância não consegue acompanhar a mudança, e, na maioria das vezes, o dife­rente é estranho, esquisito, desafia nosso controle, nos­sa estabilidade, nossa zona de conforto, e tudo que não é “normal”, de acordo com nossa rotina e nossos pa­drões, torna-se uma ameaça, e, dessa forma, abrimos de­liberadamente espaço para o preconceito.

“Haverá falsos Cristos e falsos profetas”, disse Jesus, na passagem analisada em O Evangelho Segundo o Espiri­tismo.

Como está o Cristo em nós? É o Cristo ou um falso profeta que dialoga conosco, deturpando os ensinamentos de acordo com a nossa miopia?

Será que estamos buscando realmente estudar para aprender a nos conhecermos melhor e sabermos contribuir para o bem de todos, ou estamos apenas ficando na su­perficialidade de alguns desses ensinamentos para simples­mente julgarmos e os usarmos como justificativa de nossas opiniões e ideias pré-concebidas?

Qual era a base dos ensinamentos de Jesus? O Amor.

O que nos pede o Espírito de Verdade? Amai-vos e instruí-vos.

Como nós, espíritas, estamos nos instruindo com os ensinamentos à nossa disposição?

Se Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, e ou­tros tantos, estivessem aqui, novamente encarnados, e chegassem para conhecer nossa casa espírita, como seria?

Eles entrariam? Ficariam para o passe? A palestra preencheria seu coração? Os estudos proporcionariam bom ânimo e crescimento? Seriam incentivados ao traba­lho e à prática dos estudos? E nos trabalhos assistenciais? Seriam bem recebidos e aprenderiam com os trabalhado­res voluntários? Teriam bons exemplos de vivência dos en­sinamentos?

É claro que todas estas perguntas estão sendo feitas com base na reencarnação, no esquecimento do passado, e estaríamos diante de um José, de um Antonio, de uma Bea­triz… não saberíamos que se tratava de Bezerra, Eurípedes, Scheilla. Como agiríamos?

Eles ficariam em nossas casas? Tornar-se-iam espí­ritas?

Suponhamos que sim. Será que, depois de muito estudo e ainda cheios de dinamismo e vontade, quando explanassem o entendimento das obras de Kardec, que, certamente, analisariam de uma forma mais profunda e abrangente, estaríamos abertos a dialogar para ampliação dos conhecimentos? Cederíamos esse espaço?

“Haverá falsos Cristos e falsos profetas” – Como utili­zaríamos este ensinamento em nosso coração? Seriam eles, querendo deturpar tudo? Ou seríamos nós, com medo de mudar, de pensar?

Não seria ninguém.

Somos apenas humanos, Espíritos encarnados, lutan­do por pequenos poderes, com vícios e apegos, presos a for­mas e rotinas, com medo das responsabilidades, medo de sermos substituídos, de perdermos importância, que, mui­tas vezes, excedemos no tamanho. Esquecemos de que nosso maior tesouro não se encontra em causas, casas ou coisas. Nosso maior tesouro está em nosso coração, onde nem a tra­ça nem a ferrugem podem destruir, e ninguém o tira de nós.

Em momentos de tanto radicalismo e extremismo, quando cada um de nós quer falar mais alto que o outro, e uma trave nos impede de enxergar, nos esquecemos de que o Cristo não nos trouxe uma igreja, nem um templo; trouxe-nos, sim, convivência, justamente com os excluídos, trouxe também ensinamento e aprendizado constante: “Se alguém quer ser o primeiro, que seja o último e o servo de todos”. Ensinou-nos a amar sem barreiras, libertando nos­so coração do egoísmo e do orgulho.

Os ensinamentos codificados por Allan Kardec são atemporais, e isso se encontra exposto na abertura de O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em to­das as épocas da Humanidade”. Aqui também encontramos uma das dicas do Espírito de Verdade, falando-nos de fé e não de religião.

“Se cada um de nós consertar dentro o que está desa­justado, tudo por fora estará certo”, foi como nos orientou o Espírito André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier.

Muitos acreditam que o que estamos vivendo são presságios dos fins dos tempos, mas são apenas reflexos de nossas ações, do dia a dia, do ano a ano, e também de nossa falta de ação.

Voltando ao exemplo dos grandes vultos do passado, que se dedicaram aos estudos e ao próximo, com a mesma intensidade e de várias formas, inclusive através da políti­ca, como reagiriam se aqui estivessem encarnados, lendo as seguintes notícias?

– a cada 7 minutos, uma mulher sofre violência física em nosso país, e, mais da metade delas, pelos seus côn­juges. O Brasil é o 5º país onde acontece mais violência contra a mulher;

– há 99,3% de preconceito no ambiente escolar, seja por questão de gênero, por motivo étnico-racial, socioeconô­mico ou orientação sexual;

– 27% dos brasileiros ainda são analfabetos, não sa­bem ler, nem escrever, e muitos mal sabem o significado das palavras;

– a população carcerária do Brasil chega a 622 mil, é a 4ª maior do planeta, e enfrentamos um problema de superlotação;

– mais da metade da população brasileira acredita que o comportamento feminino é o responsável pelo estupro;

– atualmente, o suicídio mata mais jovens do que o HIV;

– o Brasil tem o 3º pior índice do mundo em desigual­dade social;

– 26,3 milhões de toneladas de alimentos por ano, no Brasil, são jogadas no lixo, enquanto 7 milhões passam fome;

– ocorreram 149 mortes de homossexuais, vítimas de homofobia, no primeiro semestre de 2016;

– 82% acham que a maioria das pessoas age no intui­to de tirar vantagem sobre o semelhante;

– o Brasil bate recorde de doenças, como a dengue e o zika. 43% de nossa população vive em locais sem sanea­mento;

– o racismo explica 80% das causas de morte de ne­gros no país. Negro é quem mais sofre com a discriminação socioeconômica, apesar de a população negra e parda ser maioria no Brasil;

– Automutilação afeta 20% dos jovens brasileiros;

– 60 milhões de pessoas no mundo tiveram de aban­donar seus lares por motivo de conflitos e pobreza, em bus­ca de refúgio;

– no mundo, existem mais de 350 milhões de pessoas com depressão e, no Brasil, já é a doença que mais inca­pacita;

E por último:

– o Espiritismo vingou no Brasil, mas é predominan­temente composto por uma classe de maior poder aquisiti­vo, com maior índice de nível superior e 98,6% de índice de alfabetização.

Qual seria a atitude desses benfeitores espirituais en­carnados? Lavariam as mãos?

Será que estariam vendo o Espiritismo como algo puro e que não se mistura com a vergonha atual que esta­mos vivendo? Ou estariam vendo muitas oportunidades de ajudar e vivenciar o amor do Cristo fora da casa espírita, na sociedade?

Como reagiriam? Falariam sobre isso nas reuniões espíritas? Fariam campanhas de educação e conscienti­zação? Ficariam indignados e inquietos ou achariam que isso simplesmente está escrito e determinado a acontecer?

O que você acha?

Percebam que as manchetes, citadas anteriormente, atingem pobres e ricos, crentes e ateus, indo além do di­nheiro e das religiões.

Na pergunta 642 de O Livro dos Espíritos, Allan Kar­dec faz a seguinte pergunta aos Espíritos: “Bastará não fa­zer o mal para ser agradável a Deus e assegurar sua posição futura?”

Os Espíritos respondem: “Não, é preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo mal que resulte do bem que não haja feito.”

Em um pequeno conto popular, um mestre, sentado sobre uma pedra, observava um grupo de crianças, quando um desconhecido entregou um pacote de balas para elas. Assim que aceitaram o pacote, o pequeno grupo de crianças correu em direção ao mestre e pediu:

– Mestre, distribui estas balas para nós?

O mestre, então, perguntou:

– Ao modo de Deus ou dos homens?

As crianças, espertíssimas, responderam prontamente:

– Ao modo de Deus, é claro!

Então, o mestre pegou o saco e começou a distribuir aleatoriamente para cada criança, da seguinte maneira:

– 3 balas para você, 2 para você, para você nenhuma, 5 para você, 1 para você…

Esse pequeno conto, embora pareça sem sentido, nos faz questionar: qual é a lógica da distribuição do mestre? Foi justamente essa pergunta que o mestre respondeu para as crianças com sua atitude: Por que vocês precisam de mim para fazer a coisa certa?

A proposta não é de mudar os ensinamentos, mas mudar nossas atitudes. Obter conhecimento de maneira rasa, sem reflexão, é ficar preso aos chavões que fazem par­te de conversas infrutíferas, na tentativa de isenção do caos presente. É quando nos utilizamos de justificativas como: “são as dívidas do passado”, “faz parte do resgate”, “é um carma que ele tem de passar”, ou achamos que tudo se re­solve simplesmente com “passes”, porque a perturbação é a causa do problema, e por aí vai, sempre no momento em que nos deparamos com um necessitado.

As desigualdades vêm dos caminhos que ajudamos a construir na vida. Cabe a nós desenvolvermos o princípio da igualdade, sem julgamento moral, apenas dividindo, sa­bendo o que é certo fazer. Promovendo com dignidade o ser humano, sem assistencialismo, sem bônus-hora. Compar­tilhar, seja o que for, sem que aquele que receba venha a se sentir diminuído por receber, e aí não importa se é um bem material, um abraço ou apenas um pouco de atenção.

A Terra pede ajuda, o homem pede ajuda. A psicos­fera da Terra vai mudar quando nós mudarmos, quando trabalharmos verdadeiramente para isso, independente­mente de religião. O conhecimento nos liberta. Se ainda estamos presos, ao que quer que seja, provavelmente é porque não compreendemos muito bem os ensinamentos.

Ser espírita não significa pertencer a uma classe so­cial, a um status quo; é ser um aluno que, diante da mul­tidão, em seus pensamentos, ainda tenta responder a per­gunta de Pilatos: Jesus ou Barrabás?

Aqui hoje estamos reencarnados, e este é o nosso lar, a nossa família, o nosso trabalho, os nossos amigos… Pos­samos todos fazer o nosso melhor, para sermos felizes aqui e agora. Sonhar com nossa chegada ao plano espiritual, para então começarmos a ser felizes, é pura utopia e não muda em nada a realidade que vivemos.

A Terra será um planeta melhor quando todos nós banirmos, de nosso coração, o egoísmo e o orgulho. Esta é a última resposta, o fechamento, dado pelos Espíritos em O Livro dos Espíritos.

Relembremos a passagem de O Evangelho Segundo O Espiritismo, item denominado Os Infortúnios Ocultos: “(…) Quem é esta mulher de ar distinto, vestida de maneira sim­ples? (…) Qual é seu nome? Onde mora? Ninguém o sabe; para os infelizes, é um nome que não revela nada, mas é o anjo de consolação (…) É espírita? Que importa!”

Há muito a consertar dentro de nós, haja vista o mun­do que está aí fora, refletindo, como um grande espelho, nosso interior, foi o que nos lembrou o Espírito André Luiz anteriormente.

Todos somos responsáveis pelo mundo atual e não será apenas com nossas crenças que melhoraremos o mun­do, será com nossas atitudes e com educação, provenien­tes do conhecimento. Ninguém fará por nós, como desejado pelas crianças no conto citado. A divisão entre o bem e o mal acontece apenas nos contos infantis. Fazem parte da natureza humana o bem e o mal, quando nos aproximamos de Deus e quando nos afastamos Dele.

Precisamos aprender a amar, não apenas tolerar; a respeitar o outro e a diversidade cultural de nosso país; a falar menos e trabalhar mais pela união; a viver o Cristo, silenciosamente, dentro de nós, exteriorizando compaixão com a nossa pequenez humana, para o bem de todos e do planeta, no qual vivemos hoje.

(Extraído do Anuário Espírita 2017 – Ide Editora.)  

Post Author: ideeditora

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