Carta Psicografada por Francisco Cândido Xavier

 

 Morte, um lado diferente. Só isso.

Mãe, peço a bênção.

É isso mesmo, Fé e alegria. Aprendi com o seu coração e não encontro lição maior neste momento de reencontro. Este é um dia nosso, dia de amor, porque estamos novamente unidos por esse fio misterioso da palavra escrita.

Estou melhor. Não posso dizer que a pele está corrigida como um milagre. Estou em tratamento.

Fevereiro tem carná. Estou lembrando aqueles cartazes de nossa Goiânia. E carná tem luta sem fevereiro mesmo.

Esperei estes minutos e prometi que não faria investimentos de tristeza.

Morte, “Véia”, é um lado diferente. Só isso. É como se a pessoa vivesse aí, junto de um velho

muro, ignorando o que há no avesso da cerca. Pois a cerca não é assim tão forte. Vim sem pular por altura nenhuma. Cheguei naturalmente, com meu pai, a fim de agradecer. Estou quase bem. Digo quase bem, porque a cabeça ainda balança um pouco, se a memória der um empurrão mais forte.

“Véia”, sou eu que peço para que não esquente a cabeça. Tudo passou.

Fico muito grato por seu esforço. Esforço de não guardar ressentimento.

Seu filho estava realmente brincando com a vida. Perdoe se isso aconteceu. Não tive a ideia de que a terminação seria aquela. Foi uma zebra sem tamanho a que me surpreendeu. Mas não há de ser nada.

Mãe, não culpe a ninguém, peço.

Agradeço o seu pedido ao nosso amigo Dr. Wanderley, e peço transmita aos nossos, especialmente ao nosso Mário, o respeito e o carinho com que me deram a paz.

Isso, Mãe, é assim mesmo. Uns chegam por aqui em maca ou cama de sofrimento, outros voltam com o sangue enrolado por dentro das veias, outros regressam de juízo perdido nos remédios do descanso obrigatório, e muitos dormem por aí e acordam por aqui, com a cara e a coragem.

Eu, que sempre julguei cuidar-me para não entrar pelo cano, vim para cá diante do cano a querer entrar por dentro de mim. Mas, fora o pesar que causei ao seu carinho e aos nossos, estou menos mal.

Sucedeu o melhor.

Nunca me perdoaria se o amigo estivesse no meu lugar, em matéria da viagem forçada.

Às vezes, uma brincadeira é sistema de balança pagadora. Supus que me entregava a um divertimento de rapaz, e o prato da justiça ficou mais pesado para mim.

Agora, no que falo, digo o que ouço do velho Gastão. Diz ele, por vezes, “que entrou na água, julgando entreter-se, e a água acabou entrando nele”. Nossos negócios estavam por ali. Meia Ponte, periferia e ocorrências. Sentimos que o fogo em mim se faça fogo em seu coração e que as águas do rio se hajam transformado em lágrimas nos seus olhos, entretanto, as lutas estão passando.

Pai e eu refletimos nessa base e contamos com o seu perdão.

Peço ao seu carinho: medite nos Henriques outros que estão por aí, necessitando de sua bondade de mãe.

O nosso reencontro será fatal.

Anteontem, fui eu a rever meu pai, ontem foi o velho Gregoris a retornar para os braços do filho.

Meu avô que se fez de volta para cá, desconhecendo tantos fatos dos tempos últimos, surpreendeu-se muito ao reencontrar-me.

“Véia”, o seu dia chegará. Não se apresse.

Sei que o suicídio não é dose para nós, mas a morte pode sobrevir por motivos diversos. E um deles, e talvez dos mais fortes, é aquele do desejo forte da pessoa quando escolhe morrer.

As suas tarefas são muitas.

Um rapaz, qual eu mesmo, estuda e estuda, no entanto, um coração de mãe é muito importante no mundo, sem estudar especificamente para atuar nos Grupos da Humanidade.

Conduzamos nosso Eduardo para a compreensão. Ele não pode andar encucado, perguntando por que – o porquê da minha vinda para cá num inesperado momento.

Ajude meu irmão a considerar o caminho do trabalho a escolher.

Não sei o que deva falar.

Opiniões às vezes são forças disfarçadas de violência. Não sei por que Eduardo prefere voar, mas, se isso é sonho dele, desejo ao querido irmão o destino de um Lindbergh.

Esquema traçado no painel, e subida calma para cima das nuvens. Sem cair, é claro.

O que não me conformo é vê-lo impressionar-se de tal modo que precise de medicina especializada.

Diga ao irmão que a vida é um capítulo que Deus escreve por nosso intermédio. E por tudo o que se escreve não se dispensa um ponto final. A morte é mudança de linha.

Estou apenas num parágrafo novo.

Saí dos estudos para trabalho empresarial e deixei a APEGO a fim de empreender outras tarefas e apegar-me a outros valores.

Apenas rogo a Eduardo apreciar a seriedade da vida, sem brincar com ela.

Mãe, agradeço a todos.

Estou tranquilo.

Seu carinho me trouxe paz.

Você entendeu tudo e me libertou de tudo o que me poderia prender aí.

Prometo, trabalharei e tentarei habilitar-me para servir ao seu lado, com as suas faculdades mediúnicas.

Estou feliz, porque você, “Véia”, cumpriu a sua fé espírita. Você não só falou e disse, mas ensinou e fez. Muito obrigado.

Meu abraço aos cunhados, à Márcia e Ângela.

Não se preocupe se a família está aumentando.

Filho, Mamãe, dá trabalho, mas oferece a bênção do sacrifício com Deus. E isso é processo legal dos melhores.

Agora, nós dois vamos trabalhar em silêncio para varrer o resto da poeira que ficou no caminho do dez de fevereiro.

“Véia”, tudo está bem, mas muito bem mesmo.

Penso no dinheiro que talvez pudesse faltar, mas pedi ao meu pai nos auxilie para que nada falte às suas mãos, sempre prontas para distribuir.

E quando conversar comigo no retrato, não me pergunte o que houve. O que houve é que amo a você cada vez mais, e que não quero me separar de você.

Mãe, agradeça por mim aos amigos e colegas de serviço. Todos foram notáveis pela dedicação.

Fique alegre e fique com Deus.

Filhos quando beijam as mães nada precisam contar. Elas adivinham. Pois adivinhe também, que seu filho estará em seus passos e que não me esquecerei um momento de seu carinho. E se você adivinhar que meus olhos estão molhados, é porque estou chorando de alegria por saber, querida Mamãe, que sempre fui e que sou seu para sempre.

Sempre seu filho,

Henrique

(Carta extraída do livro “Enxugando Lágrimas” de Francisco Cândido Xavier e Elias Barbosa – Ide Editora)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *